Mutações Sociais e Sistemas Educativos

"Necessitamos de pesquisas sobre as possibilidades de usar a tecnologia para criar instituições que sirvam à interação pessoal, criativa e autónoma e que façam emergir valores não passíveis de controle substancial pelos tecnocratas." (Illich, 1971)


O modelo de escola que temos foi criado após a revolução industrial com o objetivo de criar trabalhadores. O objetivo não era formar cidadãos nem tão pouco passar a cultura às gerações seguintes, mas simplesmente criar trabalhadores eficientes e obedientes.A base do sistema educativo não mudou, estando por isso a dar resposta a uma realidade que não a atual, uma realidade onde o professor era o detentor do conhecimento, os manuais escolares quase a única fonte acessível a certos tipos de informação, a escola como única opção para quem queria/precisava trabalhar e tinha crianças a seu cargo, onde uma formação superior era garantia de trabalho qualificado e estável para toda a vida, onde a informação não estava à distância de um clique.

O vídeo abaixo demostra como a realidade da escola está desfasada da realidade do mundo "exterior".


6 Problems with our School System


Ramos (2007) diz-nos que "a educação é encarada cada vez mais numa perspetiva alargada do desenvolvimento humano e menos na perspetiva dos seus efeitos sobre o crescimento económico". Delors, em 1996, refere que a educação deve ter como pilares o Aprender a Conviver, o Aprender a Conhecer, o Aprender a Fazer e o Aprender a Ser.

Muda-se tudo menos o que verdadeiramente interessa"Defendem que a escola deve preparar os jovens para lidar com o desconhecido, com o que está para vir, não percebendo, ou fazendo-se despercebidos, que uma escola que prepara os alunos para o desconhecido e para exercerem profissões que ainda não existem, como dizem, é uma escola que não pode ser escrutinada nem avaliada, nem responsabilizada na exata medida em que, faça o que fizer, estará sempre alinhada com o vento que soprar." (Lemos, 2020)

A escola tem mudado. Portugal foi alvo de várias reformas nos últimos anos, talvez até demais, contudo, o modelo não deixou (ainda) de ser o modelo da revoluçao industrial.
Em termos legislativos é visível uma tentativa de mudança de paradigma, como recomendado por várias agencias internacionais, como é o caso da OCDE, UNESCO e até a UNICEF, mas na prática, e muito devido à excessiva burocratização do papel do professor, da existência de exames finais e de programas das disciplinas rígidos, é muito dificil de se fazer uma real mudança. O ensino continua focado na transmissão de conteúdos, nas classificações, nas preparações para exames, no controlo.
A ideia de que a educação deve ser mais do que o Aprender a Conhecer, utilizando o termo de Delors, não é "nova" (considerando novo 27 anos...). Desde o fim do séc. XIX, inicio do séc. XX, de forma cada vez mais constante, vários autores, pedagogos, filósofos, professores, pensadores, … dizem o mesmo –MontessoriFreinetSteiner, Malaguzzi, Freire, DeweyNeillHoltGattoIllich, Gardner, Pacheco, Robinson, e muitos outros. Direta ou indiretamente dizem que a educação tem de ser mais "virada para o desenvolvimento humano" (como referido por Ramos, 2007) e muitos deles apontaram, defenderam e/ou implementaram vários caminhos e formas possíveis de o fazer. Se há mais de um século existia esta noção e esta necessidade, o que dizer nos tempos de hoje, numa sociedade que se depara com uma velocidade de mudança muito superior  ao alguma vez visto na história da humanidade e sem qualquer previsão de desacelaração? Como pode o sistema educativo dar resposta? Como será possível podermos acompanhar a velocidade da mudança social? Como podemos potenciar a globalização na educação?

Será que bastam reformas dos Sistemas Educativos ou precisamos de uma verdadeira rutura e reinvenção de um novo sistema? 





Comentários